Plebiscito sobre o aborto e casamento gay
Julio Pinto
Li e ouvi nesta última semana ataques à falta de definição da candidata à presidência da república, Marina Silva, sobre dois assuntos polêmicos: aborto e casamento entre o mesmo sexo. Um dos argumentos comentados na internet foi que Marina fica “em cima do muro” e não expressa sua fé cristã alegadamente com medo de perder os votos dos homosexuais e aborcionistas.
Minha percepção sobre esse assunto é bem diferente. Entendo que sendo cristão, devo viver e expor valores e princípios cristãos. Também entendo que o Estado é laico e que estando dissociado da Igreja deve agir como tal. Quando um candidato cristão faz campanha para a presidência, ele deve expor tanto o seu programa de governo quanto a sua estratégia de ação em congruência com as leis do país. Sendo leigo, o governo brasileiro não pode nem deve criar ou impor leis de cunho religioso. Os evangélicos e católicos precisam entender que o país Brasil não é a Igreja. Ele é laico, é leigo, é distinto da parte da sociedade cristã brasileira. Nesse mesmo país existem cidadãos ateus, que não crêem que Deus existe. Existem judeus, muçulmanos, e membros de outras religiões e seitas que não compartilham os mesmos princípios e valores da Igreja. Isso é uma realidade que o bom político precisa perceber e agir com direito. Representar um país precisa incluir a ideia de representar o povo todo, não uma parte da sociedade.
Como um cristão deve então se portar como candidato, presidente, ou legislador sem prescindir de seus princípios básicos cristãos? Ele precisa saber dividir e compreender seu papel como político e como cristão. Como esse, deve viver e se expressar como tal. Como político é que a “coisa pega”. Um cristão para ser político e conseguir administrar essa aparente dicotomia – muitas vezes mal interpretada como dualismo – tem que primeiro ser sábio. Sabedoria, aqui me refiro ao termo bíblico, não é sapiência, que uso para nominar o conceito secular. Sabedoria, segundo a Palavra de Deus, é a maneira de ver, saber, sentir e agir pelo prisma de interpretação divino. É ver como Deus vê. Isso só é possível com a ingerência e anuência do Criador. “Quem não tem essa sabedoria peça a Deus que a dá”. A sabedoria que vem do alto é essa. A sapiência, por outro lado, é a capacidade de se agir de forma brilhante baseada no conhecimento adquirido, experiências e habilidades pessoais. As duas formas podem coexistir se houver hegemonia. Quem manda em quem ditará os resultados.
A Bíblia mostra que a sabedoria do mundo – aqui usei o termo sapiência – é demoníaca, animal, natural enquanto a “loucura de Deus”, se existisse, é mais sábia do que os homens que se arvoram a chamarem-se de sábios segundo o mundo. Para os que não entenderem a nomenclarura bíblica, a Igreja chama de mundo o sistema terreno fora dela, ou seja, as instituições, a política, os governos, o comércio, e assim por diante.
Como Jesus disse, embora nós os cristão não sejamos desse mundo, que em “evangeliquês” significa que não devemos nortear nossa vida pelos valores não-cristãos, é preciso viver, conviver e com sabedoria influenciar a sociedade. Como fazer? Quando nosso papel na sociedade não requer ações que como indivíduos cristãos não concordamos, é facil, basta darmos bom testemunho e vivermos de acordo com nossos princípios. Quando, porém, escolhemos a política, as forças armadas, a polícia, ou qualquer outra profissão onde teremos que agir aparentemente de forma contrária à Palavra de Deus, precisamos buscar a verdadeira sabedoria para que a dicotomia não se torne um dualismo, ou seja, para que esses dois caminhos, o cristão e o secular, que podem andar paralelos (dicotomia), não se tornem opostos (dualismo) e de convivência impossível, forçando o cristão ou a ferir seus princípios bíblicos, ou a se retirar dessa porção da sociedade. A Bíblia afirma que feliz a nação, que nesse caso é o mundo e suas instituições, cujo Deus é o Senhor. Não precisamos abandonar a sapiência para vivermos em sabedoria. Você não pode servir a Deus e à Mamon, mas pode servir a Deus com Mamon. Você não pode usar a sapiência para ser sábio, porém será sábio em usar a sapiência.
A ação divina na sociedade pode-se dar de diversas maneiras. Dentre elas cito as quatro que considero mais importantes: 1) Através da ação da Igreja como exemplo. Por suas ações e declaraçãoes, a sociedade é desafiada a considerar melhores caminhos para si. 2) Pela ação dos cristãos em áreas que a sociedade tem primazia. Aqui, o trabalho das igrejas e de seus membros através das ONGs, escolas, hospitais, asilos, e até como voluntários em mutirões, moldam a sociedade. 3) Pela ação direta do testemunho cristão. Ser um bom patrão, um exemplo de funcionário, um comerciante honesto, dá testemunho de que os valores cristãos compensam ser vivenciados. 4) Pelo exercício da autoridade. Policiais, parlamentares, dirigentes, e o presidente, se forem cristãos e souberem como coexistir dentro de suas funções sem negarem sua fé e sem espiritualizarem o secular, imprimem indelevelmente a vontade de Deus, de forma perene, na sociedade em que vivem.
A Marina Silva é muito sábia, biblicamente falando. Como candidata, e se eleita, como presidente da nação, terá de endereçar entre outros, esses dois assuntos polêmicos: aborto e casamento gay. Ela me fez lembrar as respostas que Jesus dava aos escribas e aos fariseus, os religiosos daquela época. Note que Jesus respondia com sabedoria e astúcia somente aos religiosos, mas aos outros, aos do mundo, aos gentios (não judeus), aos repórteres da época, respodia com simplicidade e diretamente tocava no assunto. Uma de suas respostas, que na verdade foi outra pergunta aos inquiridores, causou grande constrangimento entre os religiosos que comentaram qualquer que fosse sua resposta, ficariam em desvantagem.
Marina, desde o início de sua campanha, declara que esses dois assuntos, em seu governo, deveriam ser resolvidos em plebiscito. Com isso ela passa a responsabilidade de decisão sobre os assuntos ao povo, porém não se exime de exercer poder disso fazer. Resolver que haverá um plebiscito é exercício de poder. Fazer cumprir o resultado do mesmo, igualmente é exercício de sua autoridade. Será que o povo evangélico não enxerga o óbvio? Fica entretido com a corôa e não fecunda o óvulo? Gasta horas e horas de discução sobre o “como” a candidata Marina está tratando esses dois assuntos, se apresentam como juízes, juri e carcereiros, condenando-a por não agir da “mesma forma” que eles agiriam, sem perceberem que os resultados da proposta dela serão muito mais decisivos e incontestáveis?
Levando o povo brasileiro, extremamente machista e latino, a votar em um plebiscito sobre casamento gay, alguém adivinha qual será o resultado? Se o povo brasileiro, católico por natureza, evangélicos em ascenção, votar sobre a legalização do aborto, a proposta cai, e cai pela mão e voto do povo.
As minorias lobistas e ativistas dessas duas porções medíocres, em tamanho quero dizer, comparadas com a população total, não poderão acusar o governo “evangélico”, o presidente “cristão”, a ala cristã do congresso, pela decisão desfavorável. Nesse caso, a “Vox Populi” seria realmente a “Vox Dei”. Tomar uma decisão sem analisar os perigos é temeridade, mas fazê-la tendo observado as tendências, analisado os enquetes e estatísticas de opinião, conhecendo a cultura envolvida, é sabedoria.
Qual o risco que corremos em passar para o povo brasileiro decidir sobre esses dois assuntos em plebiscito? Se o plebiscito for facultativo, podemos perder, pois os ativistas do outro lado são, como se diz, ativos. Se o plebiscito for compulsório, como o voto, ganharemos por maioria absoluta e deixaremos claro o que o povo brasileiro e não somente nós, os cristãos, nem os religiosos, nem a ala política desfavorável ao aborto ou casamento gay, pensa assim.
Heterosexuais são maioria esmagadora no Brasil. Tradição cristã faz parte da cultura brasileira.
Parabéns Marina por sua estratégia, se foi isso que a senhora planejou. Se não foi, parabéns por ter mirado na rolinha e acertado no pato.
Pr. Julio B. Pinto
Eleitor no estrangeiro.
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